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SHOW/MÚSICA
Noites de gala, samba de rua
por Luisa Chaves de Melo (07/07/2007)

O novo CD de Mônica Salmaso, Noites de gala, samba na rua, nos faz lembrar como Chico Buarque é um bom ficcionista. Não é preciso ser escritor de contos, crônicas, romances, novelas, roteiros para se criar uma boa história (embora Chico também passeie por esses bosques). Muitas músicas trazem narrativas e a seleção desse CD poderia até se chamar “histórias para se ouvir cantando”, de tão rica que é em narrativas interessantes.
Na narrativa musical bem feita, a melodia que acompanha a letra traz elementos significativos para a compreensão da história ou para a composição dos personagens, como acontece em A volta do malandro, Partido Alto e Beatriz: temos, aí, a ginga do outsider bonachão; a descrição física que ganha força caricata no acorde de samba; a delicadeza sensível de quem se transmuta em várias personas.
O velho Francisco é uma história de ruína, ambientada no Brasil imperial. A música tem um tom de lamento doce, talvez porque, apesar de ter perdido quase tudo, o velho ainda tem um grande amor a visitá-lo.
Um acidente suspeito, que atrapalha o tráfego, o público e o sábado, tem, em Construção, versões diferentes criadas por palavras que dançam, trocando de lugar em frases repetidas num ritmo de tensão constante.
O arranjo de caixa de música filia Ciranda de bailarina à literatura infantil. O vocabulário é escolhido a dedo para os pequenos se divertirem, assim como a descrição da bailarina como imagem da perfeição inatingível.
Tem muito mais: Você, você e Logo Eu?, descrições de relações amorosas problemáticas; Suburbano coração, um conto de solidão, construído na expectativa do amor por vir e na valsa melancólica; Quem te viu, quem te vê, mereceria um artigo inteiro, pela alternância dos tempos narrativos; Bom tempo, uma história de esperança pelas ruas do Rio de Janeiro; Olha Maria, belo conto de despedida; Morena dos olhos d’água, crônica de porto que poderia ter sido escrita por Jorge Amado; e Basta um dia, trecho da Medéia brasileira, que ganhou forma no musical Gota d’água.
Chico Buarque nos ensina que tão bom quanto ouvir uma boa história é cantar uma boa história.
Para saber mais, ouça:
Noites de gala, samba na rua, de Mônica Salmaso.
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